À Fata Morgana
With the wind, Sue Anna Joe in DeviantArt
Abandonar os convivas a meio do banquete e deixar o salão não era, definitivamente, o mais louvável ou sequer previsível dos actos, muito menos quando todo aquele aparato fora montado em sua homenagem. Ainda assim ela fê-lo. Murmurou algumas sílabas imperceptíveis ao garboso cavaleiro com quem dividia o centro da mesa e afastou-se rapidamente, os seus passos ligeiros totalmente imperceptíveis sob o alarve grunhido daquela pequena multidão, em júbilo perante taças rubras de vinho doce e travessas apinhadas de suculentas peças de caça.
Sempre lhe custara qualquer convívio forçado e as ocasiões festivas em particular agigantavam-se na sua alma como um tormento, um gigante pesado e desajeitado, com uma voz que eram muitas vozes sem que, de facto, fosse voz nenhuma; um monstro feito de braços e mãos e pernas e rostos, muitos rostos sem, na verdade, ter rosto nenhum. Era essa a imagem que aquela gente assumia para ela: uma amálgama de corpos disformes e suados a rosnar e a grunhir; uma besta regada a álcool e carne vermelha, com a fenda da boca a escorrer molho e as manápulas imensas, gordurosas e imundas querendo agarrá-la...
Por isso, quebrando todas as convenções, fugiu daquele lugar e daquelas gentes que a nauseavam. Os seus passos rápidos levaram-na até ao interior do castelo, em busca de silêncio e isolamento. À medida que ia avançando, o ruído ensurdecedor das gentes foi-se desvanecendo, travado pela pedra escura e fria da majestosa construção. Gradualmente a sua respiração foi estabilizando e o coração serenou, voltando à cadência quase imperceptível que o caracterizava. Então, também os passos se tornaram mais lentos e ela deixou-se vaguear pelo edifício.
Enquanto deambulava pelos corredores labirínticos da impressionante construção, notou a azáfama das aias, entrando e saindo de um certo aposento, selado por uma magnífica porta de nogueira que, volta e meia, se abria para deixar passar uma rapariguita atarefada, levando flores ou jarros de vinho aromatizado com especiarias e cálices. Ainda que inconscientemente, a jovem aproximou-se para espreitar, lavada pelo crepitar acolhedor da lareira que lá dentro estalava alegremente, talvez também ela em júbilo, ansiosa por receber os recém-casados. Quando se aproximou da entrada estacou, esmagada pela opulência que reinava na divisão, toda ela coberta de ricas tapeçarias escarlate e ouro. No centro, majestosa e imponente, a cama de dossel dominava o espaço com os seus imensos reposteiros de damasco afastados e os lençóis de linho alvíssimos salpicados de ervas, para promover a fertilidade, sobre os quais não tardava teria de cumprir o seu dever de esposa.
De repente, uma das serviçais apercebeu-se da sua presença e, soltando um pequeno gincho, aproximou-se rapidamente:
_ Senhora! Não deveis estar aqui! Ainda não é o momento da noiva entrar na sua alcova! E nem deve chegar sozinha! Eu compreendo que estejais ansiosa mas não podeis permanecer aqui. Ide, descei e aproveitai a festa!
Com uma vénia e um sorriso, a menina afastou-se, deixando-a de novo só.
Podia ter descido, como a garota lhe recomendara; seria talvez o mais sensato. Mas, em vez disso, resolveu subir às ameias. Precisava de sentir o vento, o ar fresco da noite e a claridade suave da lua, em contraste com os artoches e as fogueiras que, com o seu brilho alaranjado, enchiam a festa.
Quando chegou ao cimo das muralhas, longe de todos, sentiu-se finalmente em paz. O abraço acolhedor da noite envolveu-a e ela ergueu o rosto aos céus, perscrutando a imensidão de estrelas que os enfeitavam. Como era mínima face à imensidão do universo! E como eram ridículas as suas luxuosas vestes de samito bordadas a ouro, quando comparadas com o brilho singelo de um astro! A brisa que corria trazia-lhe suaves aromas do bosque, cheiros em tudo diferentes do aroma de excessos e álcool que reinava na festa, lá em baixo. Ela fechou os olhos, para sentir a aragem contra o corpo e permitir que ela se apoderasse dos seus magníficos cabelos longos, deixados soltos para proclamar a sua virgindade. Permaneceu assim, quieta, durante muito tempo e, quando voltou a abrir os olhos, brilhava neles uma nova vida, como uma esperança renovada.
Desceu a correr das ameias e, veloz como uma corça, entrou no castelo e percorreu-o até chegar à ala dos criados. Assim que lá chegou, entrou num dos aposentos das aias e libertou-se das longas vestes nupciais, ao mesmo tempo que se despojava de todas as jóias que a cobriam e, finalmente, do anel de ouro novo e reluzente, que brilhava no seu dedo fino como uma promessa de serenidade e abundância. Vestiu apressadamente as roupagens, bem menos aveludadas de uma qualquer criada, e cobriu-se com um manto de viagem.
Quando atravessava, sorrateira o pátio, já bem próxima da saída das muralhas, viu uma mulher correr ao seu encontro e, mesmo na escuridão, soube de imediato tratar-se de sua mãe. Esta, por sua vez, aproximou-se com tal rapidez e trazendo uma expressão tão alarmada no rosto, que se tornou claro já ter adivinhado as intenções da filha.
Assim que chegou à sua beira falou-lhe, num tom nervoso, embora baixo:
_ Filha, tens a noção do que estás a fazer?! Vê bem o que deixas para trás, pensa bem, peço-te… Peço-te! Olha para este castelo, pensa em todas as riquezas que agora são tuas; olha os terrenos que por direito te pertencem; os servos, as aias e os lacaios que se desdobram em esforços para te agradar; vê o homem que te tomou como esposa, exímio na palavra e na espada!... Quantas mulheres não desejariam estar hoje no teu lugar, cobertas de veludos e de jóias, prestes a partilhar a alcova com um dos mais belos e cobiçados cavaleiros do reino!... Vais deixar tudo isso para trás?!...
À medida que a interpelava, o rosto da mulher mais velha tornava-se tenso e afogueado, consequência da crescente rapidez e intensidade do discurso. A cada segundo que passava via aumentar o brilho resoluto da liberdade que incendiava o olhar da filha e isso fazia-a gritar com ainda mais força como se, ao fazê-lo, pudesse abafar a voz interior que lhe dizia que nada deteria aquela jovem. Por fim, desistiu de lutar contra o que se lhe afigurava como inevitável. Nesse momento, nesse único momento, houve um instante de silêncio e entre as duas mulheres estabeleceu-se a mais forte das alianças e a mais intransponível das barreiras. Ali souberam que se separavam definitivamente uma da outra e, num único olhar, enfrentaram essa realidade. Foi um olhar apenas e durou um instante só, mas nele coube todo o amor do mundo, transbordante e verdadeiro. E a lembrança dessa aliança haveria de perdurar pelas suas vidas.
Quando voltou a falar, a voz da mãe era fraca e arrastada:
_ Morgana, aqui morre a mulher que podias ter sido… É um caminho que não tem retorno; tu sabe-lo…
A jovem sorriu-lhe, um sorriso só, quase imperceptível e respondeu num murmúrio apenas:
_ Sei… Mas aqui nasce, também, a lenda da mulher que virei a ser.
A ouvir: Celtic Women - The voice