Foi entre soluços que conseguiu falar:
O Homem do Leme, L DuLac in Olhares
O Homem do Leme, L DuLac in Olhares
Teardrop, Ruela, 2009
A minha janela. Durante anos convenci-me que não havia, no mundo, outra que se lhe comparasse; na minha janela havia qualquer coisa de mágico como se, através dela, lá do alto, eu pudesse ver mundos aos quais ninguém mais tinha acesso por não haver outro miradouro como o meu. Por isso, sempre que podia, deixava cair a noite e subia subrepticiamente ao parapeito, onde me deixava ficar sentada horas e horas, olhando os céus. Conhecia cada estrela, cada fase lunar, cada luz pisqueirinha de um qualquer avião que se atrevesse a cruzar o manto da noite... e sonhava... sonhava muito. Acho que sempre foi esse um dos meus problemas: sonhar demais. E, quando se delira tanto, a realidade tem um gosto amargo, por ficar aquém da ilusão. Não foi, como é natural, difícil aperceber-me disso; até uma miúda tonta que julga ter uma janela mágica consegue descer à terra volta e meia, e encarar a realidade. Por isso, à medida que os anos foram passando, eram cada vez menos as vezes em que me sentava naquela moldura de madeira com as pernas a balançar perigosamente do lado de fora da casa. Não sei bem quando o deixei de fazer mas, olhando para trás, parece-me ter sido há uma eternidade; a mesma eternidade que passou desde que decidi deixar de sonhar; aquela eternidade que se arrasta desde que deixei de ser a catraia tonta que acreditava ter uma janela mágica...
Ainda assim, há dias em que tenho saudades daqueles pilares que emolduravam os meus sonhos, e por vezes, volto a aproximar-me da minha parede de vidros e a fitar a imensidão do horizonte. Mas faço-o apenas em dias como o de hoje, em que os céus estão cinzentos e tristes, tão tristes que as lágrimas que choram escorrem pela superfície lisa e fria da minha janela. Creio que me aproximo apenas nestes momentos por ser mais difícil sonhar num dia assim. Hoje, no entanto, quando comecei a sentir a chuva que escorria pelos vidros toldar-me o olhar, vi-te lá ao fundo, lá longe na rua, para onde a minha atenção nunca é desviada. E acenaste-me, mesmo daquela lonjura. Um aceno que era, todo ele um sorriso, como um convite para dançar. E eu, nem sei bem como, sorri-te de volta e, sem pensar duas vezes, virei costas à janela e desci as escadas a correr, pronta a ir ter contigo. Não olhei para trás, sabes? Mas tenho a certeza que, nas pequeninas bolas de cristal que pejavam os vidros da minha janela mágica, se podia ver uma miudita de cabelos negros empoleirada no mais improvável dos locais.
A ouvir: Massive Attack -Teardrop
A ouvir: Ayreon - Comatose
O tempo tem sido generoso contigo, é um facto. A passagem dos anos não te trouxe o cansaço nem as rugas; antes te aprofundou a voz cava, aqueceu as mãos e adoçou esse chocolate quente que trazes no olhar, esse que, de tão doce e líquido, quase consegue disfarçar o abismo negro sobre o qual se espraia. Mas foi a ele, tu sabes, ao abismo, que me prendi desde o primeiro dia. E é por ele, por isso, que te tenho deixado jogar esta espécie de xadrez ridículo a que os outros chamam sedução; porque é bom mergulhar os olhos nos teus e ver neles reflectido o poço fundo que trago em mim, aquele que nunca vi em mais ninguém. Hoje, no entanto, fartei-me de jogos e o nosso já dura há tempo demais. É tarde e eu estou cansada. Talvez seja tempo de deixar a rainha cair. Não vai ser difícil e, sabes? Acho até que vou gostar de ver o brilho dos teus olhos quando puderes finalmente dizer “xeque-mate”. É… acho que até vou gostar. Mas antes, deixa-me apenas fazer-te um pedido; o meu único pedido: por favor, pára de fingir que te preocupas comigo.
A ouvir: Sirenia - My mind's eye
Sorrow, Kittynn in DeviantArt
Catch a falling star, fireraeyvn in DeviantartAutor Desconhecido
I am your rag doll, Sue Anna Joe, in DeviantArtA young girl reading a book, Getty
Findo o período de férias, é tempo de recolher os muitos livros que, ao longo destes dias, se foram amontoando na minha mesinha-de-cabeceira ou na secretária. Antes, porém, deixo-vos alguns excertos de cada um deles; meia dúzia de páginas soltas que, por algum motivo, me tocaram…
Mais uma vez deixo o aviso: não procurem, nelas, um fio condutor, uma ligação, nada; são apenas páginas soltas, que o vento arrastou consigo e hoje estão espalhadas à vossa frente.
“(…) apaixonar-se pela lua, não seria senão um acto de loucura; mas saltar do alto de uma torre na louca esperança de se elevar ate ela, seria cometer um suicídio.”
(Walter Scott in “O Talismã”)
“Não tinham outra alternativa senão a vitória ou a morte. Daí o seu ardor e a sua serenidade.”
(Anatole France in “Os Deuses têm Sede”)
“Outrora o espírito era Deus, depois fez-se homem, agora fez-se gentalha.”
(Nietzche in “Assim falou Zaratustra”)
“O dever do homem –afirmam- é pensar como os seus semelhantes; o céu o proteja se julga ser bom o que eles consideram mau”.
(Samuel Butter in “Erewhon”)
“Forbiden to remember, terrified to forget; it was a hard line to walk.”
(Stephanie Meyer in “New Moon”)
“O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.”
(Fernando Pessoa in “Aforismos e Afins”)*
*Edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha, Editora Assírio & Alvim.
“Quando a Ambição, tal águia singrando,
Não viu alem de si nenhum penedo,
Suas asas tombou num arremedo…
E para o lar voltou o olhar brando."
(Edgar Allan Poe, Tamerlao in “Obra Poética Completa”)*
* Tradução, Itrodução e notas de Margarida Vale de Gato, Edições Tinta da China
“Onde não há Imaginação não há horror.”
(Sir Arthur Conan Doyle in “Estudo em Vermelho”)
“Nunca fui excessivamente infeliz – porque não tenho imaginação.”
(Eça de Queiroz in “O Mandarim”)
“Detesto a rotina monótona da existência.”
(Sir Arthur Conan Doyle in "O Signo dos Quatro")
"(...) teve a desventura de encontrar a mulher da sua vida demasiado cedo e demasiado tarde: era demasiado inexperiente para conseguir segura-la, demasiado adulto para se esquecer dela."
(Monaldi e Sorti in "Secretum")
A ouvir: 221B Baker Street*
* Da série "The Return of Sherlock Holmes" (1984)

A ouvir: Le Roi Soleil - Tant Qu'on Rêve Encore

"Porque um só tempo é nosso
e esse tempo é hoje"
(Manuel Alegre)
Depois de três sessões de quatro horas, posso dizer que o barulho irritante das agulhas e o ligeiro (às vezes não tão ligeiro quanto isso) desconforto do metal que me marca a carne, não só se tornaram rotineiros, como me são quase agradáveis. Por isso, hoje, aqui estendido na marquesa enquanto a obra-prima que agora trago nas costas recebe os últimos retoques, posso até dar-me ao luxo de me abstrair e pensar, como se diz, na vida. E, para mim, pensar na vida traduz-se, afinal, em pensar no que fiz dela. Ou no que deixei que ela fizesse de mim.
Tenho vivido demasiado tempo agarrado ao que esperam de mim, preso aos deveres e às obrigações, tentando esconder por detrás dos olhos sempre esquivos e do rosto invariavelmente fechado, a dor de me ter perdido algures no caminho. Chega a doer-me pensar naquilo em que me tornei ao longo destes anos. De cedência em cedência (daquelas cedências pequeninas, que a princípio nada parecem afectar) acabei por ceder a minha própria identidade, em detrimento da vida de revista que encenei e dos sorrisos que ensaiei para o retrato de família. No canto mais sombrio da casa, no armário mais escondido, fui guardando, um a um, cada um dos meus sonhos, dos mais ínfimos aos maiores, afundados naquelas gavetas imensas de madeira pesada, abafados pela escuridão morna que nelas reina. Esperava que, com o tempo, acabasse por esquecê-los, escondidos sob a poeira dos anos. Mas não. Voltei lá, há tempos, e abri uma das gavetas, a medo. Lá dentro, indiferentes à passagem do tempo, estavam todos os meus sonhos, mais brilhantes até do que os recordava. Vê-los assim, abandonados, mexeu comigo e, embora eu tenha voltado à rotina, fingindo não os ter (re)encontrado, não mais consegui apagar aquela imagem da minha mente.
Por isso vim cá, concretizar um desses sonhos, que durante anos deixei escondido no fundo da gaveta. E, agora que a tatoo está pronta, e sinto as costas a arder como se me tivessem aspergido em álcool depois de me ter cortado, chego a achar deliciosa esta dor. E sinto-o porque ela é a prova de que estou vivo (vivo!) e isso é algo que, há muito não sei o que é.
A ouvir: Linkin Park – In Between
Poster photo for "The Romantics", modelled on Edvard Munch's "The Vampire" (1894)
MEDICINA ALTERNATIVA
_ Sentes-te bem? Pareces-me tão branca… Não estarás com um princípio de anemia?
_ É possível. Não posso dizer que me ande a alimentar bem, nos últimos tempos. Mas isso resolve-se facilmente, bebé… Chega aqui o teu pescocinho, chega…
LUA NOVA
Ela era uma criança linda, de olhos grandes de mar e caracóis luminosos de sol. Até ao dia em que ele voltou. Ele, velho, de olhos duros de pedra e mãos de ferro, como tenazes. Bastou um dia, umas horas apenas e os olhos dela cresceram de medo, único farol que restava no corpo franzino que antes transbordava vida, e agora fedia a sangue e sexo.
O sol, que até então animava os cabelos dela, fugiu no horizonte, incapaz de assistir à cena. E, quando em luto, o manto negro da noite cobriu os céus, a lua recusou-se a nascer e nem uma estrela surgiu para aliviar as trevas.
PAIN THAT I’M USED TO
Between pain and nothing I’ve chosen pain
NOW WE ARE FREE
Agora estamos aqui, perdidos na cidade que quase não existe mais esmagada sob o peso do betão e a imponência cinzenta e impessoal dos prédios novos, aninhados nestas pedras de granito que o tempo diligentemente poliu e o sol de Junho aqueceu, abrigados pelas casas antigas mirradas, invariavelmente próximas umas das outras, como se dessa escassa distância dependesse a sua estabilidade.
Hoje, no entanto, tudo parece mais acolhedor. Será, talvez, porque a cidade ribeirinha ganhou um novo brilho enquanto, engalanada, se prepara para receber a noite mais longa do ano. Ou talvez seja pela voz de sereia roubada ao mar que ecoa, divina, nas margens do rio. Pensei em tudo isto mas, agora que te olho de soslaio e te vejo do meu lado, com os cabelos desgrenhados do vento, sei-o: é, unicamente, por estares aqui comigo.
A DISTANCE THERE IS
Funny how you can stand so close to me, and yet be so distant at the same time…
VELHA INFÂNCIA
Há muito que aprendi a deixar de sonhar. Na verdade acho que esperava, com o tempo, conseguir mesmo deixar de sentir. Hoje, no entanto, resolvi dar uma folga a mim mesma e deixar-me ser criança novamente. Peguei na minha saia mais esvoaçante e corri pela calçada até, sem fôlego (pois!) te encontrar sereno e sossegado, como sabia que estarias. Nada mudou: a vida continua uma merda e, lá fora, o mundo é um inferno, mas enquanto estou aqui, com os gatos a correrem atrás dos farrapos de noite que escorrem da minha saia e as mãos enterradas nos teus cabelos, que entranço como se de uma boneca se tratasse, tudo me parece bem.
A ouvir: The 69 Eyes - Gothic Girl
Colheita - Ceifeiras, António Carvalho da Silva Porto
I saw light in the darkness, Sue Anna Joe in Deviantart
Girl writing, Henriette Browne
PS: A falta do Hino de Ciências, deixo-te o Fado do Estudante. Talvez daqui a uns anos, ainda juntas, o possamos cantarolar com saudade ou dança-lo num ritmo de… tango ;)
A ouvir: Pólo Norte - Fado do Estudante
You used to smile, Ameera, in Deviantart
Devotion, Adrian Cordero in Deviantart
With the wind, Sue Anna Joe in DeviantArt