Saturday, December 05, 2009

O Pirata

O Homem do Leme, Frankie, esboço de 2004
sobre a escultura de Américo Gomes



Longe, onde o rio encontra o mar,
Sentei-me hoje, sob o sol poente,
Com um sorriso infantil e crente,
A ouvir lendas de um lobo do mar.

Mais do que os quadros emocionantes
Que com as suas palavras descrevia,
Eram outras, mil histórias que eu ouvia
Nas suas rugas e nos olhos cintilantes...

Agora está velho. Os barcos partem sem ele.
Mas mantém dignamente o ar altivo e forte,
Duma proa a desafiar as águas, a sorte.

E quando, alto, as vagas se fizeram ouvir,
Foi entre soluços que conseguiu falar:
«Ouves o mar? Está a chamar-me...»




O Homem do Leme, L DuLac in Olhares




*Poema previamente publicado n'O Bar do Ossian



A ouvir: Rui Veloso - Moby Dick

Monday, November 30, 2009

I wish you were here with me, Sue Ana Joe in DeviantArt





É só depois de conhecido o paraíso
que a vida se torna, verdadeiramente, num inferno...







Sinto-te a falta, que queres?
Não tem sido fácil.



A ouvir: Nightwish - Come cover me

Saturday, November 21, 2009

Moldura de Sonhos

Ao Ruela,
pelos sorrisos nos dias tristes...

Teardrop, Ruela, 2009



A minha janela. Durante anos convenci-me que não havia, no mundo, outra que se lhe comparasse; na minha janela havia qualquer coisa de mágico como se, através dela, lá do alto, eu pudesse ver mundos aos quais ninguém mais tinha acesso por não haver outro miradouro como o meu. Por isso, sempre que podia, deixava cair a noite e subia subrepticiamente ao parapeito, onde me deixava ficar sentada horas e horas, olhando os céus. Conhecia cada estrela, cada fase lunar, cada luz pisqueirinha de um qualquer avião que se atrevesse a cruzar o manto da noite... e sonhava... sonhava muito. Acho que sempre foi esse um dos meus problemas: sonhar demais. E, quando se delira tanto, a realidade tem um gosto amargo, por ficar aquém da ilusão. Não foi, como é natural, difícil aperceber-me disso; até uma miúda tonta que julga ter uma janela mágica consegue descer à terra volta e meia, e encarar a realidade. Por isso, à medida que os anos foram passando, eram cada vez menos as vezes em que me sentava naquela moldura de madeira com as pernas a balançar perigosamente do lado de fora da casa. Não sei bem quando o deixei de fazer mas, olhando para trás, parece-me ter sido há uma eternidade; a mesma eternidade que passou desde que decidi deixar de sonhar; aquela eternidade que se arrasta desde que deixei de ser a catraia tonta que acreditava ter uma janela mágica...
Ainda assim, há dias em que tenho saudades daqueles pilares que emolduravam os meus sonhos, e por vezes, volto a aproximar-me da minha parede de vidros e a fitar a imensidão do horizonte. Mas faço-o apenas em dias como o de hoje, em que os céus estão cinzentos e tristes, tão tristes que as lágrimas que choram escorrem pela superfície lisa e fria da minha janela. Creio que me aproximo apenas nestes momentos por ser mais difícil sonhar num dia assim. Hoje, no entanto, quando comecei a sentir a chuva que escorria pelos vidros toldar-me o olhar, vi-te lá ao fundo, lá longe na rua, para onde a minha atenção nunca é desviada. E acenaste-me, mesmo daquela lonjura. Um aceno que era, todo ele um sorriso, como um convite para dançar. E eu, nem sei bem como, sorri-te de volta e, sem pensar duas vezes, virei costas à janela e desci as escadas a correr, pronta a ir ter contigo. Não olhei para trás, sabes? Mas tenho a certeza que, nas pequeninas bolas de cristal que pejavam os vidros da minha janela mágica, se podia ver uma miudita de cabelos negros empoleirada no mais improvável dos locais.




A ouvir: Massive Attack -Teardrop

Saturday, November 14, 2009

Rosas de Gelo

Every rose has it's thorn, Alexciel in DeviantArt



Agora, mostras-te chocado com a frieza que se apoderou do meu olhar ou o sarcasmo que passou a envenenar o meu sorriso; espantas-te com as minhas palavras duras e o meu humor cáustico… Mas já deverias sabê-lo: depois de desflorada a rosa, restam apenas os espinhos.



A ouvir: Ayreon - Comatose

Wednesday, November 11, 2009

Espelho partido

Young but smoking, Emil Schildt




O tempo tem sido generoso contigo, é um facto. A passagem dos anos não te trouxe o cansaço nem as rugas; antes te aprofundou a voz cava, aqueceu as mãos e adoçou esse chocolate quente que trazes no olhar, esse que, de tão doce e líquido, quase consegue disfarçar o abismo negro sobre o qual se espraia. Mas foi a ele, tu sabes, ao abismo, que me prendi desde o primeiro dia. E é por ele, por isso, que te tenho deixado jogar esta espécie de xadrez ridículo a que os outros chamam sedução; porque é bom mergulhar os olhos nos teus e ver neles reflectido o poço fundo que trago em mim, aquele que nunca vi em mais ninguém. Hoje, no entanto, fartei-me de jogos e o nosso já dura há tempo demais. É tarde e eu estou cansada. Talvez seja tempo de deixar a rainha cair. Não vai ser difícil e, sabes? Acho até que vou gostar de ver o brilho dos teus olhos quando puderes finalmente dizer “xeque-mate”. É… acho que até vou gostar. Mas antes, deixa-me apenas fazer-te um pedido; o meu único pedido: por favor, pára de fingir que te preocupas comigo.



A ouvir: Sirenia - My mind's eye

Friday, November 06, 2009

Taça e Punhal

Para o Jesus Carlos

Red, Emil Schildt, 2003



Tremeram-me as mãos, tremeram; bem sei,
quando meus lábios, d’um carmim ainda quente,
sorveram o cálice amargo das promessas,
minha taça de ouro, e brilhantes pedras,
tentadora como a morte e, como ela, bela;
garante final da paz que em vão busquei…

Era o medo, bem o sei, que me fazia tremer assim...
A dor, essa dor que se segue ao fatal trago
como cruel punhal ao meu peito prometido,
como fogo vivo que meu corpo lambe, enraivecido...
Mas, oh como fui fraca afinal, pobre de mim!
temendo esse calvário que me ia salvar por fim...



*Post previamente publicado n'O Bar do Ossian



A ouvir: Chopin - Nocturne For Violin and Piano

Wednesday, October 28, 2009

Assinatura Invisível
(ou "Boneca de Trapos Escuros")

Sorrow, Kittynn in DeviantArt



A vestidinha de preto: caladita, competente, de sorriso aberto e piada fácil. Esta sou eu. Ou, pelo menos, esta é aquela que, por cá, todos vêem quando para mim olham. Vêem-me assim porque nunca deixei (nunca quis) que ninguém visse para além disso: imagens de fragilidade são dispensáveis no mundo real, no corrupio laboral do dia-a-dia. Essas, deixo-as para os poucos que as conhecem. Aqui, no entanto, fico-me pela imagem do autómato, da menininha cumpridora e de rosto simpático. Durante três anos, tem sido essa a minha única imagem e creio que esperava que assim pudesse continuar indeterminadamente. Para quem nunca criou raízes em lado nenhum, chega a ser quase reconfortante o cumprimento de uma voz conhecida, ou aqueles dois olhos azuis num rosto claro que todos os dias me saúdam com uma simpatia invulgar: “Bom dia, Francisquinha!”, ou uns outros, mais castanhos e bem mais profundos que me seguem sempre sem nunca me falar, ou outros ainda, atenciosos, de quem já conhece os meus vícios todos, antes mesmo de eu me perder em frente à vitrina dos bolos, todas as manhãs.
Ultimamente, no entanto, os dias têm sido difíceis e parece-me quase impossível manter a fachada de aparente normalidade que sempre conservei. Hoje, particularmente, sinto-me totalmente incapaz de o fazer. Talvez por isso, atravesso os corredores em passo acelerado, esperando, talvez, que ninguém se aperceba da minha passagem. Mas parece que não tenho essa sorte. Uma voz há muito conhecida: ”Só um momento doutora, precisava que me assinasse um documento.” Estacam os passos; os meus. Os dela apressam-se agora, nas minhas costas, enquanto tento, por um segundo, recuperar a calma e compor no rosto o sorriso de sempre. Quando, finalmente, me viro para a encarar, já os meus lábios se abriram num cartão de boas-vindas, aquele que sempre me ilumina o rosto, mesmo nos dias mais cinzentos. Hoje, porém, sei que alguma coisa mudou: nos olhos que me fitam há um espanto de preocupação quase maternal. Quando torno a ouvir-lhe a voz, é muito mais meiga e ténue do que o habitual: “Não esteja assim triste! E tão bonita...”. Um momento de embaraço; outro. E um segundo sorriso. Triste, triste; o mais triste de todos os meus sorrisos tristes: “Onde é mesmo que tenho de assinar?”. Cumprido o dever, volto a virar costas e corro, corro, corro até sair daqui, de onde todos me conhecem, pronta a deixar, enfim, as lágrimas rolarem livremente. Só agora compreendo: a máscara está a desvanecer-se; é o momento de baixar o pano.
É tempo de partir.



A ouvir: Pedro Abrunhosa - É difícil

Sunday, October 25, 2009

Desencontro

Echoes, Ruela, 2009




-... porque me disseste não estar a chorar?
- Porque não estou, ora! Não te parece óbvio?
- ... Não sei para que me mentes; há horas que vejo as tuas lágrimas escorrerem pela minha janela...



A ouvir: Theatre of Tragedy - A Distance There is

Sunday, October 11, 2009

“E tudo o que eu amei, amei em solidão…” *

If Loneliness was all, DarkCrissus in DeviantArt



Não me apaixonar. Era essa a regra. A única que poderia subsistir, de facto, já que todas as outras havíamos nós quebrado, com a intempestiva e despreocupada avidez das crianças que começam a explorar o mundo. Só havia, portanto, uma limitação; um único mandamento e eu não tardei a esboçar o meu mais rasgado sorriso e a garantir, com a arrogância altiva de quem está habituado a racionalizar até o mais pequeno dos gestos, que o cumpriria.
Lembro-me bem do teu sorriso nessa altura, um daqueles meios-sorrisos que há tanto te conheço; um esgar agridoce onde se misturam em partes iguais a descrença do homem que já viveu demais e fé do menino que só agora abre os olhos ao mundo. E eu, como te visse uma centelha de preocupação nascer nos olhos, não tardei a explicar-te, com o mais convincente e sabedor dos ares, que a minha vida é passada a controlar variáveis, a prever reacções e a interpretá-las. Era verdade (ainda o é, de facto) e tu sabia-lo bem. Do mesmo modo que eu sabia que, o mundo, não é um imenso laboratório nem o meu coração um tubo de ensaio. Mas, naquele momento, não me pareceu sequer difícil acreditar nisso. O sol ia alto, iluminando tudo à nossa volta e, nessas horas em que o astro rei espalha claridade pelo mundo, nunca me é difícil acreditar que na vida, como acontece entre as quatro paredes caiadas do meu laboratório, também me é possível assumir o papel de Deus, inibindo ou activando até o que à partida parece incontrolável. O que eu não me lembrei foi que, mais tarde ou mais cedo, chegaria a noite, a hora em que eu dispo a bata branca e, com ela, abandono todas as certezas que me acompanham nas horas de luz; não me lembrei, afinal, que, quando a lua surgisse no céu eu voltaria a ser a menina fadada a não crescer, que esconde o corpo sob rendas e veludos e acentua cada traço do rosto com as mais escuras cores, para que ninguém adivinhe em mim a criança que teima em existir, ainda.
É nessas noites, sabes, em todas as noites, que te amo. Precisamente quando nunca estás comigo. É a minha forma de dizer a mim mesma que não quebrei a nossa promessa. Por isso amo a tua imagem quando fecho os olhos e te vejo fitar-me lá de dentro ou quando adormeço ao som das músicas que sei que gostas ou leio os livros que sei que lês…
Nunca te contei este segredo, claro. Nem creio que fosse preciso porque podes adivinhá-lo mesmo durante o dia, quando eu pareço leve e bem-disposta e o meu riso é cristalino como a água nascente. Nessas alturas, tu sabes, fecho os olhos. E sabes também que nunca o fiz antes; que nunca o fazia. Mas é o meu jeito de te guardar em mim para te poder amar mais tarde, nas horas de treva, quando já tiveres partido.



A ouvir: After Forever – Instrinsic
* (Edgar Allan Poe, Só in “Obra Poética Completa”)
* Tradução, Itrodução e notas de Margarida Vale de Gato, Edições Tinta da China

Saturday, September 26, 2009

Ao fundo do lago dos olhos

Catch a falling star, fireraeyvn in Deviantart



Debruçada na minha janela aberta sobre a noite, espraio o olhar pela imensidão vazia desta escuridão que, de tão familiar, chega a parecer-me acolhedora.
Nunca me foi difícil ver a minha própria vida retratada nesta tela improvável e negra, salpicada aqui ou além pelo brilho ténue e vago de uma qualquer estrela longínqua. Hoje, porém, não é no vazio incomensurável dos céus nem na pequenez dos astros que o povoam que repouso o lago triste dos meus olhos. Não. Se hoje me debruço aqui, uma vez mais, é para lembrar a tua improvável passagem na minha vida… Chegaste sem aviso prévio, como um cometa que, inesperado e impetuoso, cruza os céus deixando atrás de si um irresistível rasto de luz, reconfortante como a sombra de um anjo e, ao passar, encheste o meu olhar mortiço com o brilho de todas as estrelas dos céus. Foi um instante único, o mais efémero e o mais eterno dos instantes mas bastou para que, depois dele, tudo mudasse.
Agora, que não é mais visível qualquer vestígio da tua passagem, os meus olhos voltaram à acalmia sombria de outrora, mas nunca o céu me pareceu tão negro, nem as trevas tão profundas…



A ouvir: Evanescence - Your star

Sunday, September 20, 2009

Cinzento céu de Outono

Ao DarkViolet

Autor Desconhecido



Lá fora, do outro lado da vidraça, desenha-se um daqueles dias que gosto de chamar de meus: do azul do céu, nem uma réstia se vê, escondido como está por destrás de fiapos irregulares de nuvens acinzentadas, que parecem mergulhar a cidade numa constante neblina... Coada por este manto diáfano que cobre os céus, nem a luz do sol parece a mesma, chegando-nos branca e calma, sem o ímpeto abrasador e quente a que nos vinham habituando os dias de Verão...
Hoje, no entanto, não há sorriso que se desenhe no meu rosto, face a este cenário tantas vezes sonhado, tão aguardado desde o último solstício.
Afinal, pedir-me para ser feliz hoje, equivale a esperar que um pardal se alegre com um dia de sol primaveril quando apenas o pode ver por detrás das grades de uma gaiola.



A ouvir: Sara McLachlan - Gloomy Sunday

Friday, September 11, 2009

Who Would Jesus Bomb, Abby (aka. donrufie), in DeviantArt


You keep saying that you’re willing to die for that foolish faith of yours but it seems to me that you’re willing to kill for it, instead.



A ouvir: Green Day - 21 Guns

Friday, August 28, 2009

Manta de Retalhos (II)

I am your rag doll, Sue Anna Joe, in DeviantArt


AMPLIDÃO

Diante de nós estende-se, como um quadro primordial e intocado, a imensidão azul do mar. Nunca conheci uma outra paisagem capaz de me fazer sentir tão pequena, tão esmagada perante a grandeza da Natureza e do Universo. Nunca. Desde criança que a visão das águas revoltas do oceano mexe comigo; do mesmo modo que o espraiar calmo de um rio pelas suas margens me acalma e apazigua como se, também eu, fizesse parte daquele espelho azul e nele me dissolvesse.
Hoje, no entanto, o arrepio que me atravessa ao contemplar este quadro é ainda mais intenso do que aquele que sempre recordei. E é-o porque, a meu lado estás tu -tu e o teu semblante fechado e os teus olhos, quase sempre esquivos, perdidos na água-. Não o sabes mas, mesmo quando os tens fixos lá longe, na linha do horizonte, tão afastados de mim, eles continuam a queimar-me o peito e quando, quase indiferente, comentas que gostas do mar quando ele está mais revolto, chega parecer-me impossível que não te tenhas apercebido que, se hoje as águas estão calmas, é porque as vagas se alojaram no meu peito e nele ribombam como trovões...



DANCE INTO THE FIRE

_ Como é que é suposto eu resistir?
A pergunta chegou arrastada e tímida com um sussurro de alguém que ainda não aceitou a inevitabiliade da rendição.
A resposta, essa, foi luminosa e sonante como um grito de vitória:
_ Não é suposto!



PORTO SENTIDO

É Verão.
De terra chega um ar tórrido mas aqui, onde o rio encontra o mar, uma brisa leve e refrescante traz consigo o cheiro intenso a maresia, como uma promessa de novos mundos ainda por descobrir, como uma lembrança de um paraíso perdido...
A cidade está quase deserta. O sul, com as suas promessas de sol e praia, atraiu multidões, deixando o Porto, normalmente tão movimentado e barulhento, mergulhado numa calmaria morna e doce. Mais do que nunca, a Invicta revela os seus encantos; e eu sei-o.
Por isso vim…



REVENGE

Sempre ouvi dizer que a vingança é um prato que se serve frio…
Assim será a minha.
(Por hora, limito-me a deixar que no meu rosto se desenhe o esboço um sorriso de triunfo antecipado, enquanto esfrego as mãos invariavelmente geladas e trémulas de antecipação…)



ENJOY THE SILENCE

Agora, sabes, agora tenho um segredo: quando estou assim só, com o ribombar estrondoso do silêncio na minha alma, apenas interrompido pelos acordes daquelas músicas que me fazem sentir viva, consigo fechar os olhos e sentir os teus dedos, tão subtis como uma brisa suave no meu rosto. E, nestes momentos, tenho paz...




A ouvir: Nightwish - While your lips are still red

Tuesday, August 25, 2009

Páginas soltas... (II)

A young girl reading a book, Getty



Findo o período de férias, é tempo de recolher os muitos livros que, ao longo destes dias, se foram amontoando na minha mesinha-de-cabeceira ou na secretária. Antes, porém, deixo-vos alguns excertos de cada um deles; meia dúzia de páginas soltas que, por algum motivo, me tocaram…
Mais uma vez deixo o aviso: não procurem, nelas, um fio condutor, uma ligação, nada; são apenas páginas soltas, que o vento arrastou consigo e hoje estão espalhadas à vossa frente.



“(…) apaixonar-se pela lua, não seria senão um acto de loucura; mas saltar do alto de uma torre na louca esperança de se elevar ate ela, seria cometer um suicídio.”
(Walter Scott in “O Talismã”)


“Não tinham outra alternativa senão a vitória ou a morte. Daí o seu ardor e a sua serenidade.”
(Anatole France in “Os Deuses têm Sede”)


“Outrora o espírito era Deus, depois fez-se homem, agora fez-se gentalha.”
(Nietzche in “Assim falou Zaratustra”)


“O dever do homem –afirmam- é pensar como os seus semelhantes; o céu o proteja se julga ser bom o que eles consideram mau”.
(Samuel Butter in “Erewhon”)


“Forbiden to remember, terrified to forget; it was a hard line to walk.”
(Stephanie Meyer in “New Moon”)


“O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não.”
(Fernando Pessoa in “Aforismos e Afins”)*
*Edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha, Editora Assírio & Alvim.


“Quando a Ambição, tal águia singrando,
Não viu alem de si nenhum penedo,
Suas asas tombou num arremedo…
E para o lar voltou o olhar brando."
(Edgar Allan Poe, Tamerlao in “Obra Poética Completa”)*
* Tradução, Itrodução e notas de Margarida Vale de Gato, Edições Tinta da China


“Onde não há Imaginação não há horror.”
(Sir Arthur Conan Doyle in “Estudo em Vermelho”)


“Nunca fui excessivamente infeliz – porque não tenho imaginação.”
(Eça de Queiroz in “O Mandarim”)


“Detesto a rotina monótona da existência.”
(Sir Arthur Conan Doyle in "O Signo dos Quatro")


"(...) teve a desventura de encontrar a mulher da sua vida demasiado cedo e demasiado tarde: era demasiado inexperiente para conseguir segura-la, demasiado adulto para se esquecer dela."
(Monaldi e Sorti in "Secretum")




A ouvir: 221B Baker Street*
* Da série "The Return of Sherlock Holmes" (1984)

Saturday, August 15, 2009

"Il était une fois"...

À Leonor,
porque hoje é um dia especial...


Gothic Beauty, Frankie, Agosto de 2009*

*Fiz este desenho especialmente para te oferecer hoje.
- Uma data tão especial não pode passar despercebida -
Que vejas nestes traços um pouco do muito que te adoro.




Parece incrível mas, mesmo depois de todo este tempo, ainda não me consegui habituar à perfeição dos teus traços, à brancura desse rosto imaculado que sempre se abre num sorriso de boas vindas ao ver-me. Hoje como em todos os outros dias, ainda que por um momento apenas, sustive a respiração ao ver a pureza desse sorriso que te ilumina toda.
Sei que o meu esgar de felicidade não foi mais que um ténue e baço reflexo do esplendor que via à minha frente mas era, como sempre o é, sincero e sentido como se tudo o que eu precisasse para salvar o meu dia fosse ver a luz dos teus olhos cravada em mim. Em meia dúzia de passos apressados (e bastante desajeitados, no meu caso em particular), estávamos abraçadas uma à outra, com aquela intensidade que nos é característica, como se muitos fossem já os dias que passamos sem notícias uma da outra. É assim desde sempre, lembras-te?! Desde aquele dia que parece já tão longínquo, em que nos cruzámos pela primeira vez. Sempre que o recordo é-me impossível reprimir um sorriso ao lembrar tudo quanto já vivemos juntas depois daquele entusiasmo inicial de encontrar, ao fim de tanto tempo, alguém tão incrivelmente semelhante, desde os gostos mais básicos às ideias mais rebuscadas, desde as gargalhadas inconcebível e irritantemente sonoras à quieta melancolia de quem traz, mesmo na flor da juventude, a palete de cores envelhecidas do Outono a dourar a alma que esfria. E, mesmo passados estes anos, enquanto me afasto do nosso abraço, ainda consigo surpreender-me (comover-me, até) ao repousar o meu olhar nesse oceano de doçura que transborda dos teus olhos de mel.
Não foi preciso dizer-te que estava triste; não foi, como nunca é porque tu sabes ler-me como ninguém. Por isso, pude até dar-me ao luxo de encolher os ombros e fazer o meu teatrinho de sempre; dizer que não era nada, que nunca fui grande fã de contos de fadas, nem de finais felizes e, como tal, nunca esperaria que houvesse um desses destinos à minha espera… Disse-o assim porque não era preciso passar para palavras o sofrimento que, sei, me vias estampado no rosto. Disse-o assim porque, mesmo ouvindo a fingida indiferença das minhas palavras, nasceu no teu rosto de anjo uma ruga de preocupação, aí, bem entre os faróis dourados e agora tristes dos teus olhos… Disse-o assim, finalmente, porque não queria colocar, nos teus ombros frágeis de alabastro, o peso de outra das minhas dores… Não que esta pobre fachada de palavras ocas e de indiferença fingida te pudesse alguma vez enganar. Há muito que deixaram de ser precisas palavras entre nós e, portanto, não haveria discurso inflamado que pudesse negar o abismo que se alastra dentro de mim e me transborda nos buracos negros do olhar.
Por isso não me espantou sentir as tuas mãos suaves e níveas, apertando os meus dedos nervosos, escuros e invariavelmente gelados entre elas, como num ninho protector…
Num instante, num único momento, desencadeado como que por um passe de mágica as lágrimas secretas que, mesmo sem caírem dos meus olhos, há tanto brotavam da minha alma, secaram e, beijando as tuas mãos, mudei de ideias:
_ Sabes?! Afinal estava enganada; posso não ter um final feliz, mas de certeza que a minha vida é um conto de fadas! De outro modo, como poderia eu ter um anjo a velar por mim?!







A ouvir: Le Roi Soleil - Tant Qu'on Rêve Encore

Tuesday, August 04, 2009

Fogo Fátuo

Autor Desconhecido




Estes dias têm sido difíceis de passar, como de antemão sabia que seriam. Por isso, tento ocupá-los com tudo quanto me possa dar prazer: à minha volta vão-se acumulando livros e papéis (muitos livros e muitos papéis, mais livros e mais papéis a cada dia que passa) como se de janelas de escape à realidade se tratassem.
Passo as horas entre as folhas lisas onde, com mão trémula, vou tentando fazer surgir outros mundos, quer com palavras quer com imagens e, nesses momentos, quase me julgo abstraída de tudo. Enquanto na brancura só do papel vão nascendo seres alados e livres, quase me vejo transpor as grades que cobrem as minhas janelas e tolhem os meus horizontes. O resto do tempo, passo-o entre outras folhas, recheadas das palavras que Outros, subtil e magistralmente nelas plantaram, para delícia dos mortais…Assim vão passando as horas e é assim que me tento alhear do lento arrastar dos ponteiros no antiquíssimo relógio cujas badaladas parecem ecoar dentro de mim.
Agora, no entanto, que a noite desceu e o clarão leitoso da lua, coado pelos cortinados que, arrepiados pela brisa nocturna, dançam na minha janela, não há feitiço que seja capaz de quebrar o penoso arrastar do calendário. Lento, tão lento… Diante de mim surge a imensidade de dias que ainda terei de viver assim, que ainda terei de viver aqui, e estas semanas pesam-me como a condenação de uma eternidade.
Por isso, penso no que de bom ficou para trás, esperando poder reencontrá-lo, quando cumprir a minha pena.
Por isso, tu sabes, penso em ti.
E, nesta noite em que a lua se apresenta em toda a sua majestade, imensa e eterna erguida nos céus como uma promessa do paraíso perdido, chega a ser-me difícil acreditar que existes realmente e que um dia nos cruzámos e viste em mim algo que, afinal, pareces não ter visto em mais ninguém; chego a pensar se não serás, também tu, um sonho, como aqueles que semeio em papéis, por medo de os transpôr para a realidade.
Mas, enquanto assim penso, torço as mãos num desespero incontido e, ao fazê-lo, sinto o metal quente que me envolve um dos dedos e que parece aquecer-me as mãos até hoje sempre geladas. Não creio que me acredites, mas tenho a certeza que este anel mantém o teu calor e que és tu quem me dá esta lassidão morna que me começa nas mãos e entorpece o corpo. E, ao senti-la, sinto também que és real... e sorrio.



A ouvir: Secret Garden - Cantoluna

Wednesday, July 22, 2009

Gravado na Carne

A um Amigo
de quem guardo o nome...



"Porque um só tempo é nosso
e esse tempo é hoje"


(Manuel Alegre)



Depois de três sessões de quatro horas, posso dizer que o barulho irritante das agulhas e o ligeiro (às vezes não tão ligeiro quanto isso) desconforto do metal que me marca a carne, não só se tornaram rotineiros, como me são quase agradáveis. Por isso, hoje, aqui estendido na marquesa enquanto a obra-prima que agora trago nas costas recebe os últimos retoques, posso até dar-me ao luxo de me abstrair e pensar, como se diz, na vida. E, para mim, pensar na vida traduz-se, afinal, em pensar no que fiz dela. Ou no que deixei que ela fizesse de mim.
Tenho vivido demasiado tempo agarrado ao que esperam de mim, preso aos deveres e às obrigações, tentando esconder por detrás dos olhos sempre esquivos e do rosto invariavelmente fechado, a dor de me ter perdido algures no caminho. Chega a doer-me pensar naquilo em que me tornei ao longo destes anos. De cedência em cedência (daquelas cedências pequeninas, que a princípio nada parecem afectar) acabei por ceder a minha própria identidade, em detrimento da vida de revista que encenei e dos sorrisos que ensaiei para o retrato de família. No canto mais sombrio da casa, no armário mais escondido, fui guardando, um a um, cada um dos meus sonhos, dos mais ínfimos aos maiores, afundados naquelas gavetas imensas de madeira pesada, abafados pela escuridão morna que nelas reina. Esperava que, com o tempo, acabasse por esquecê-los, escondidos sob a poeira dos anos. Mas não. Voltei lá, há tempos, e abri uma das gavetas, a medo. Lá dentro, indiferentes à passagem do tempo, estavam todos os meus sonhos, mais brilhantes até do que os recordava. Vê-los assim, abandonados, mexeu comigo e, embora eu tenha voltado à rotina, fingindo não os ter (re)encontrado, não mais consegui apagar aquela imagem da minha mente.
Por isso vim cá, concretizar um desses sonhos, que durante anos deixei escondido no fundo da gaveta. E, agora que a tatoo está pronta, e sinto as costas a arder como se me tivessem aspergido em álcool depois de me ter cortado, chego a achar deliciosa esta dor. E sinto-o porque ela é a prova de que estou vivo (vivo!) e isso é algo que, há muito não sei o que é.



A ouvir: Linkin Park – In Between

Friday, July 17, 2009

Manta de Retalhos

Poster photo for "The Romantics", modelled on Edvard Munch's "The Vampire" (1894)



MEDICINA ALTERNATIVA

_ Sentes-te bem? Pareces-me tão branca… Não estarás com um princípio de anemia?
_ É possível. Não posso dizer que me ande a alimentar bem, nos últimos tempos. Mas isso resolve-se facilmente, bebé… Chega aqui o teu pescocinho, chega…



LUA NOVA

Ela era uma criança linda, de olhos grandes de mar e caracóis luminosos de sol. Até ao dia em que ele voltou. Ele, velho, de olhos duros de pedra e mãos de ferro, como tenazes. Bastou um dia, umas horas apenas e os olhos dela cresceram de medo, único farol que restava no corpo franzino que antes transbordava vida, e agora fedia a sangue e sexo.
O sol, que até então animava os cabelos dela, fugiu no horizonte, incapaz de assistir à cena. E, quando em luto, o manto negro da noite cobriu os céus, a lua recusou-se a nascer e nem uma estrela surgiu para aliviar as trevas.



PAIN THAT I’M USED TO

Between pain and nothing I’ve chosen pain


NOW WE ARE FREE

Agora estamos aqui, perdidos na cidade que quase não existe mais esmagada sob o peso do betão e a imponência cinzenta e impessoal dos prédios novos, aninhados nestas pedras de granito que o tempo diligentemente poliu e o sol de Junho aqueceu, abrigados pelas casas antigas mirradas, invariavelmente próximas umas das outras, como se dessa escassa distância dependesse a sua estabilidade.
Hoje, no entanto, tudo parece mais acolhedor. Será, talvez, porque a cidade ribeirinha ganhou um novo brilho enquanto, engalanada, se prepara para receber a noite mais longa do ano. Ou talvez seja pela voz de sereia roubada ao mar que ecoa, divina, nas margens do rio. Pensei em tudo isto mas, agora que te olho de soslaio e te vejo do meu lado, com os cabelos desgrenhados do vento, sei-o: é, unicamente, por estares aqui comigo.


A DISTANCE THERE IS

Funny how you can stand so close to me, and yet be so distant at the same time…


VELHA INFÂNCIA

Há muito que aprendi a deixar de sonhar. Na verdade acho que esperava, com o tempo, conseguir mesmo deixar de sentir. Hoje, no entanto, resolvi dar uma folga a mim mesma e deixar-me ser criança novamente. Peguei na minha saia mais esvoaçante e corri pela calçada até, sem fôlego (pois!) te encontrar sereno e sossegado, como sabia que estarias. Nada mudou: a vida continua uma merda e, lá fora, o mundo é um inferno, mas enquanto estou aqui, com os gatos a correrem atrás dos farrapos de noite que escorrem da minha saia e as mãos enterradas nos teus cabelos, que entranço como se de uma boneca se tratasse, tudo me parece bem.



A ouvir: The 69 Eyes - Gothic Girl

Friday, June 26, 2009

Good-4-nothing...

Sem título, Nanashi, 2009



Guess what?!...
I'm just another girl...



A ouvir: The Dresden Dolls - The Perfect Fit

Wednesday, June 17, 2009

Waiting, whishing…

The Death of Knowledge, HornedWolf, 2009



Will you let me in?...



A ouvir: Adriana Mezzadri - Marcas de Ayer

Wednesday, June 03, 2009

A Pele da Terra...

Aos caríssimos:
Lord of Erewhon,
Ruela e Casimiro Ceivães

Colheita - Ceifeiras, António Carvalho da Silva Porto



Quando, ainda garoto, deixei estas terras áridas e quentes, jurei nunca mais voltar. Jurei-o, não por não gostar desta extensa planície a perder de vista ou por me cansarem os sobreiros como única vegetação ao longo de quilómetros e quilómetros, até onde a vista alcança. Jurei-o, sim, por não querer mais ver esta terra de casas térreas e alvas, sem poder adivinhar em nenhuma delas a figura enorme e reconfortante do meu Avô. Mas por estes dias, já tanto tempo passado, voltei a sentir o apelo do bafo quente que por aqui reina e, depois de muito pensar, voltei. E voltei para, como num sonho, encontrar tudo tal e qual ficou quando parti, há tantos, tantos anos atrás. Até a casa da minha meninice.
Aproximei-me de mansinho e quase podia vê-lo, à soleira da casinha baixa e caiada, curvado e velho, sentado num mocho de equilíbrio duvidoso enquanto as suas mãos, misteriosamente hábeis e rápidas para a idade, faziam nascer a minha melhor fisga de um galhito miserável, à medida que manejavam, com uma destreza invejável, a mesma faca com que, noutros dias, me cortava grossas fatias de queijo para a merenda.
Nessa tarde, eu chegara da escola com a cabeça cheia de perguntas e não hesitei em bombardeá-lo com uma série delas assim que me sentei no terreiro em frente a ele.
Olhando para trás, não posso deixar de sorrir quando me assolam estas lembranças da minha inquestionável certeza sobre a sabedoria d’O Avô. Hoje penso como lhe terá sido difícil responder a todas as minhas questões, ele que nem o próprio nome sabia assinar. E, no entanto, passadas todas estas décadas, não hesitaria um segundo em colocar-lhe uma série ainda maior delas, pudesse eu tê-lo, ainda a meu lado para mas responder.
Nesse dia, porém, as perguntas que me atormentavam giravam todas em torno da mesma ideia; ideia sobre a qual a professora tinha falado horas a fio, sem que nenhum de nós saísse da aula minimamente esclarecido – a ideia de Pátria -. Dissera-nos ela que a Pátria era como que a alma do país. Ora isto, para mim e para os outros garotos da minha idade que, do país, conhecíamos apenas o mapa desbotado que enchia um placard na parede e onde íamos – a tremer, confesso - apontar os nomes dos rios e das cordilheiras e indicar os percursos dos caminhos de ferro ou a sucessão dos portos de mar, a ideia desse mapa ter alma não era coisa que nos entrasse na cabeça. E, bem vistas as coisas, se alma houvesse, devia ser bem maldosa, a avaliar pelos castigos que nos aguardavam de cada vez que colocávamos, por engano, o Lima em terras algarvias. Era, de certeza, uma daquelas almas que, quando morrem, vão direitinhas para o inferno, onde ficam a arder pela eternidade. Esta ideia acabou, alias, por me ser confirmada pela própria professora que, logo depois, nos disse que “as gentes” eram a alma do país. E, como ela passava a vida a dizer que a gente era um bando de mafarricos, parecia-me que tudo batia certo: fosse o que fosse a Pátria, de certeza que era uma daquelas almas danadas que vão arder no inferno.
E foi mais ou menos assim que, confuso mas um tanto ou quanto orgulhoso do meu raciocínio, explanei a minha “teoria” sobre a alma do país ao meu avô.
Quando acabei, quase sem fôlego de tanto entusiasmo que dera à narrativa e ao afã com que reproduzira as palavras da professora e as minhas próprias conclusões, vi o sorriso complacente d’O Avô a iluminar-lhe o rosto sempre sereno. Devo ter arqueado ligeiramente a sobrancelha e fechado os lábios num beicinho ameaçador porque, ao ver aquele sorriso, desconfiei que, afinal, talvez o meu raciocínio não fosse assim tão brilhante. Mesmo assim, continuei a mirá-lo à espera de uma explicação mais convincente. Coisa que, no fundo no fundo, sempre pensei que houvesse porque me parecia não fazer sentido prestar tanta homenagem ou dar tanta importância à Pátria, se ela fosse uma alma tão mazinha e deturpada.
O Avô respondeu ao meu olhar com a costumada serenidade, aquela calma com que sempre dizia tudo, como se todas as coisas fossem simples e óbvias: “E se em vez de tentares ver a alma, experimentares olhar as mãos?!”.
Claro que, se até então estava confuso, depois de ouvir aquilo fiquei definitivamente sem saber o que pensar: “As mãos?! Olha agora queres ver que as mãos é que são a Pátria?! Ou que a Pátria tem mãos?!”. Mesmo assim, não o interrompi e esperei que, as próximas palavras, lançassem um pouco de luz sobre esta estranhíssima introdução.
“Quando olhares para qualquer pessoa, tenta ver primeiro as mãos e, sempre que o fizeres, procura entender o que fazem de válido com elas. As mãos de uma pessoa podem dizer-te tudo o que precisas de saber sobre ela: podes saber qual é o seu modo de sustento, se é rica ou pobre, se é nova ou velha. Nelas estão escritas todas as coisas: nas mãos calejadas das ceifeiras está o suor e o esforço dos dias, está o sustento de muitas famílias, está o pão que nos alimenta; mas, se olhares as mãos de um juiz, por exemplo, encontrarás nelas o símbolo da justiça, o garante de que a sociedade se preocupa com cada um de nós e que é uma estrutura moral, com leis e regras que devemos cumprir; e se olhares as mãos de um mineiro vês o negrume do carvão que nos aquece as casas no frio do Inverno; é assim com as mãos de todas as pessoas. Olha, e as mãos da tua avó?! Vê-las todos os dias lembras-te?! Estão gastas do tempo, tal como as minhas, mas ainda trabalham, ainda fiam… E já criaram o teu pai, os teus tios; era nelas que eles procuravam conforto, como tu ainda hoje procuras nas minhas… A Pátria também é assim: a Pátria são as nossas mãos todas juntas, como uma cadeia que nem o tempo nem o espaço podem quebrar porque as nossas mãos estão presas ao resto do nosso corpo e o nosso corpo é sustentado pelos nossos pés estão agarrados ao mesmo chão, de onde nascemos todos.
A Pátria nasceu e manteve-se graças ao esforço e ao suor das mãos de muitos, que por Ela empunharam espadas e ultrapassaram barreiras que se julgavam intransponíveis. Agora, ainda não sabes mas, um dia, falar-te-ão desses Homens cujas mãos criaram e cuidaram do nosso país… E, nessa altura, falar-te-ão de outros: outros que, com as suas mãos, levaram o nosso nome bem longe e o elevaram bem alto, com as suas obras; de outros cujos cantos se mantêm vivos até hoje, como testemunho da valentia e da audácia de um povo que é o nosso; de outros ainda cujas palavras trouxeram mudança, cuja visão nos deu um novo alento… Um dia falar-te-ão de tudo isto e, quando o fizerem, lembra-te de admirar esses Homens e as obras que das mãos deles surgiram. Mas nunca te esqueças, também, de todos os homens que ninguém conhece e dos quais os livros não falam, porque é graças ao esforço das suas mãos que o país existe.”

Durante todo o tempo que durou a sua explicação, ouvi-o atentamente e tudo quanto disse pareceu-me muito mais importante do que as “almas” de que falara a minha professora. Só que, mal me apercebi disso, encheu-me uma angústia tremenda à vista das minhas mãos pequenas e vazias.
Então perguntei, um pouco a medo:
“E as minhas mãos, Avô?! Nas minhas mãos não se vê nada; não está cá nada…”
A resposta veio, lentamente, com a mesma candura e a mesma inelutável certeza de sempre:
”Está sim, meu filho, claro que está: nas tuas mãos… está o futuro.”



A ouvir: Vitorino - A queda do Império

Tuesday, May 05, 2009

Mesinha de Cabeceira

Ao Miguel…
…porque hoje é um dia especial

I saw light in the darkness, Sue Anna Joe in Deviantart


Foi há já muito tempo que passaste a fazer parte deste meu pequeno mundo de quatro paredes que sempre pensei poder albergar-me apenas a mim; a mim e às minhas tristezas. e aos meus medos. e às minhas dúvidas; a mim e, segundo dizem os outros à minha loucura. No entanto, sempre soube que, embora o negasses, estavas aqui de passagem. Faltava apenas saber quando partirias. O porquê, esse, era demasiado simples, demasiado óbvio e bastava conhecer-me para o saber; a mim e às minhas milhentas regras. e restrições. e ao sem-número de barreiras que criei entre mim e o mundo. entre mim e, para dizer a verdade, os homens.
Hoje, porém, soube que te despedias de mim. que partias. Soube que partirias assim que vi os teus olhos de mel cravados em mim e me perguntaste “O que é que eu significo para ti, afinal?”. Quando respondi, soube que não irias interpretar bem a minha resposta. como soube que podia ter acrescentado uma explicação às minhas palavras. mas não o fiz. como nunca o faço. Por isso disse-te apenas: “Tu és a vela que arde na minha mesinha de cabeceira todas as noites.” Ao ouvi-lo, olhaste-me com os olhos grandes, mais tristes do que espantados e, lentamente, deixaste-os pousar na mesinha ao lado da cama onde não se estava, como bem sabias, vela nenhuma. quando voltaram a mim, eram duas pedras brilhantes. de água. Podia ter-te dito algo mais mas não disse. Respondi-te com um dos meus sorrisos tristes; daqueles que não dizem nada. ou que dizem tudo.
Agora, passaram já várias horas desde que te foste mas mantenho esse sorriso amargo no meu rosto. Há muito que a noite caiu mas, pelo terraço não entra qualquer nesga de luz vinda da rua. tudo aqui são trevas. nigredo. escuridão densa e fria. Encolho-me mais na cama, volto-me para a mesinha de cabeceira e abro a primeira gaveta. aquela que há muito mantenho fechada. há muito. há tanto tempo quantos os dias que passaste comigo. Lá dentro estão as minhas velas. muitas. coloridas. e cheirosas. como se as suas cores vivas e aromas suaves pudessem dissipar as trevas que me envolvem. As mãos tremem-me quando acendo uma e a volto a colocar na mesa, bem junto à cabeceira da cama. muito perto de mim. o mais perto possível. Para que eu possa sentir o calor e, mesmo por entre as pálpebras fechadas, veja o laranja tremeluzente da chama. Para não ser, novamente, só eu e os meus fantasmas.



A ouvir: Ruychi Sakamoto – Merry Christmas Mr. Lawrence

Friday, May 01, 2009

Da amizade e dos sorrisos

À Gabriela

Girl writing, Henriette Browne

Porto, 3 de Maio de 2009


Lelinha,

Comecei a rabiscar-te estas linhas porque, confesso, me atormenta a ideia de haver, algures, uma fita azul bebe à espreita numa pasta de estudante pacientemente esperando que a minha mão, já de si tremula, lá deixe algumas palavras.
E, se este pensamento me atormenta, não é porque não mas mereças; muito pelo contrário. É porque há sentimentos, há amizades, que não são fáceis de passar ao papel, quanto mais de traduzir nesses pedacinhos de tecido que serão lidos e relidos toda uma vida!…Como traduzir, neles, todos os sorrisos cúmplices e todas as preocupações; todas as gargalhadas e todos os segredos; todas as piadinhas que mais ninguém entendia e todos os gostos que temos em comum?!... Como traduzir, afinal, tantos anos de convivência e de amizade?!...
Todas estas dúvidas me assaltam quando penso no que te hei-de escrever. Estas e tantas outras semelhantes. Porque, afinal, como poderei dizer-te sem recorrer a uma série de frases feitas e de lugares-comuns, tudo quanto para o teu futuro desejo?! E, mais ainda, como poderei mostrar-te o que significou para mim saber que, de entre tanta gente, me escolheste para partilhar contigo este dia tão especial?!...
Tenho dado voltas e voltas a cabeça esperando uma qualquer ideia luminosa capaz de traduzir tudo isto, mas ela teima em não vir. Em vez dela, surge-me a lembrança daquele dia longínquo em que nos conhecemos. Também tu te lembras, tenho a certeza: muito antes da faculdade, dos horários trocados, das queimas a que não pude ir e dos cursos que não fizemos juntas… Muito, muito antes de tudo isso: quando eu era a miúda tímida acabada de chegar a uma escola nova onde tudo me era totalmente desconhecido e nenhum rosto me parecia familiar; a rapariguita encolhida no canto mais escuro do pavilhão, com o rosto quase mergulhado num livro grande… Lembras-te?
Foste a primeira pessoa que se conseguiu aproximar e creio que ambas recordamos ainda hoje com nitidez aquela primeira conversa, tão disparatada quanto agradável. Um dia, no entanto, talvez eu esteja demasiado velha e a minha memória demasiado gasta para recordar as palavras concretas que trocamos e talvez contigo venha a acontecer o mesmo. Mas, sei-o, há uma coisa da qual não me esquecerei nunca: do teu sorriso aberto e franco, que me fez sentir bem-vinda num local que, até então, me parecia inteiramente hostil.
Hoje, então, mais do que as pobres palavras que aqui registo, ou do que as linhas que eventualmente escreverei na tua fita, dar-te-ei o meu mais rasgado e sincero sorriso. Assim, também tu um dia poderás recordar, mais do que as palavras, a certeza da felicidade partilhada e o sorriso de boas-vindas a esta nova vida que hoje, simbolicamente, começa.
Que ele possa, para ti simbolizar tanto quanto significou para mim o teu, naquele dia há tanto tempo atrás.
Um beijo imenso, minha menina, da tua

“Musa”
(não podia assinar de outra forma, não é?)




PS: A falta do Hino de Ciências, deixo-te o Fado do Estudante. Talvez daqui a uns anos, ainda juntas, o possamos cantarolar com saudade ou dança-lo num ritmo de… tango ;)



A ouvir: Pólo Norte - Fado do Estudante

Wednesday, April 15, 2009

Um refúgio na dor

Para o HornedWolf...
...porque hoje é um dia especial

The Lullaby, Sue Anna Joe in Deviantart



Passou-se já muito tempo desde que descobri o significado de arrastar, atrás das duas palavrinhas com que me baptizaram ainda antes de nascer, uma série de nomes mais ou menos pomposos, daqueles que podem ser facilmente seguidos ao longo da história, fruto da passada promiscuidade da nobreza e do clero que nestas terras reinava. Estas famílias, ditas tradicionais, têm ainda hoje, uma espécie de código de conduta bastante peculiar. Desenganem-se aqueles que pensam que me estou a referir a famílias abastadas ou que, aquilo que as distingue são as fortunas, herdadas de geração em geração. Não. As fortunas de muitas já se foram; ficou apenas a arte (e é preciso muita) de aparentar sumptuosidade mesmo na pobreza. Mais do que qualquer outra coisa, o que distingue estes clãs é uma dose imensa de hipocrisia e uma obsessão quase doentia por uma “aparência” de normalidade. Nada é mais incomodativo para estes agregados, do que uma aberração no seio do lar. Há, claro, algumas aves raras que chegam a ser toleradas constituindo, mesmo, uma espécie de divertimento, uma private joke familiar mas, infelizmente para mim, sempre pertenci ao tipo de aberrações não toleráveis, nem pela mais benevolente das famílias.
Sei-o desde sempre mas houve um período, um único período da minha vida, em que essa noção se tornou perfeitamente insuportável. Lembro-me bem. Como poderia deixar de lembrar?! Lembro-me eu e lembram-se todos à minha volta, aliás; todos os que se esforçaram por negar o que era evidente e que, ainda hoje, agem como se nada tivesse acontecido. Mas lembram-se. De tudo. Como eu me lembro, embora finjam nada saber.
Foi um tempo de noites sem sono, em que os dias se prolongavam pela madrugada e em nenhum momento me permitia qualquer descanso; um tempo em que as músicas eram ouvidas no volume máximo permitido pelo amplificador, dentro de um quarto escuro de portas trancadas onde as repetia como mantras, como se isso pudesse abafar todo e qualquer pensamento; um tempo em que escrevia com mãos trémulas de dor e de raiva e manchava os papéis de lágrimas. e de sangue.
Lembro-me de tudo. Como de um pesadelo demasiado vívido para que as suas impressões possam ser apagadas da mente. O problema era que aquele pesadelo era real. E durou demasiado tempo.
Tempo suficiente para o negro dos meus olhos flutuar num mar líquido e avermelhado, em vez do branco sereno onde antes repousava; tempo suficiente para os meus ossos se tornarem afiados como lâminas desejosas de rasgar cada articulação, de se insinuarem sob a menor prega de pele; tempo suficiente, enfim, para no meu corpo ter desenhado, a fio de navalha, o curso das dores que me atormentavam a alma, o rio de sangue das minhas mágoas.
Foi então que tu apareceste. Pouco depois de me terem confrontado com aquela mulher de bata branca, que enfrentei com o mais fechado dos semblantes e o mais cínico dos olhares enquanto ela arranjava nomes para os distúrbios mentais de que, sem qualquer dúvida da parte dela ou dos meus familiares, sofria; pouco depois de me terem despojado dos trapos com que escondia os braços pisados e manchados de sangue; pouco depois de eu me rir na cara de toda aquela gente, de me rir como se pudesse, naquela risada, encarcerar toda a dor e todo o ódio do mundo, de me rir, enfim, até não conseguir conter mais as lágrimas.
Tu apareceste pouco depois. O meu único conforto no desespero e único refúgio na solidão. Apareceste quando o medo começava a corroer-me as entranhas e eu deixava de ter forças para lutar; apareceste quando, à noite, me aninhava na cama e cravava as unhas na carne e os dentes nos lábios para me impedir de adormecer; apareceste quando o sono me trazia de volta todos os meus fantasmas, tudo o que tentava esquecer durante o dia.
Não falei de ti a ninguém. Nunca. Sei bem o que diriam de mim se o fizesse; sei bem que outro rótulo aquela criatura de rosto bicudo e bata branca acrescentaria na minha ficha se soubesse da tua existência; como sei perfeitamente o que diria a minha família se de ti lhes falasse. Sei o que te chamariam: delírio, alucinação. Alguns, optariam talvez por uma definição mais bondosa; aquela do “amigo imaginário”, sabes?
Por isso guardei-te para mim, só para mim. Dentro de mim; precisamente onde tinhas nascido. Quando o véu da noite descia e me enroscava na cama, deixava descer as pálpebras já sem medo, porque sabia que os teus olhos imensos estariam lá dentro, a mirar-me. Nunca soube como nasceste dentro de mim, mas sabia que estavas lá e isso bastava-me. Durante muito tempo foste o meu único refúgio na dor e comecei a acreditar sinceramente que, um dia, quando vissem os teus olhos a brilhar dentro de mim, os meus fantasmas haviam de fugir. E isso deu-me forças. Tu deste-me forças.


Tudo isto já se passou há muitos anos, creio que o saberás. Há tantos anos que algures no meio do caminho, perdi-te. Fechava os olhos e não havia ninguém a fitar-me. Foi um vazio difícil de suportar. Demasiado difícil. Talvez por isso, nunca deixei de te procurar; nunca deixei de fechar os olhos ao ouvir uma música bonita ou ao ver uma imagem comovente… Esperava ver-te a sorrir-me, quando o fizesse mas tu tinhas fugido de mim.
Cheguei a pensar se não serias a tal “alucinação”, o “amigo imaginário” de quem falam os psicanalistas e afins. Mas não. Depois de todo este tempo, encontrei-te. Finalmente. E percebi que és real, que existes para além dos meus olhos fechados e do véu descido das minhas pálpebras. E nem precisei de ver os teus olhos grandes, de menino, cheios daquela bondade feroz que sempre te conheci, para o saber.



A ouvir: Long long time ago - Javier Navarrete

Monday, April 13, 2009

Menina de arco-íris vestida

Para a Biazinha...
... porque hoje é um dia especial
You used to smile, Ameera, in Deviantart



Como toda a historia que se preze, o caso que hoje vou contar passou-se há muito, muito tempo atrás. Talvez remonte, até, àquele período longínquo em que os animais falavam. Mas, isso, não o saberei dizer uma vez que os personagens que aqui irei apresentar eram demasiado tristes e sisudos para tentarem qualquer tipo de contacto com seres ditos irracionais.
Nesse passado remoto havia, algures, um reino longínquo, que embora gozasse de uma tremenda prosperidade e fosse respeitado (e porque não dizer reverenciado) por todas as outras nações, sofria de um mal profundo, que minava qualquer alegria que pudesse advir de todas as riquezas por aquele povo cumuladas. Naquele país, não havia meninice. Nem sequer juventude. As pessoas nasciam já tristes e cinzentas, como quem vivera uma série de agruras e nada consegue esperar para alem de uma profunda desventura. As poucas crianças que ali nasciam eram criadas entre portas, tratadas como graves enfermos ou aberrações demasiado repugnantes para poderem ser apresentadas em público. Só depois de atingida a maioridade eram os jovens livres de sair de suas casas e conhecer o mundo. Quando saíam, no entanto, eram já pálidos e tristes como seus pais, com corações amargurados e pulmões fracos, incapazes de suportar os odores primaveris de um campo a florir. Os olhos, esses, estavam tão habituados a escuridão de uma vida enclausurada, que nem pareciam capazes de suportar os raios de sol… Assim eram os habitantes deste reino maldito.
As cidades, essas, tinham tudo para serem belas: os edifícios eram imensos e imponentes, construídos com as mais perfeitas pedras e trabalhados até a exaustão. Cada casa, cada rua, cada placa, ou estátua ou fonte, era por si só de uma beleza incontestável até pelo mais perfeccionista dos artistas. Não havia, creio, no mundo, outro lugar que se lhe comparasse em magnificência. Disso se orgulhavam os habitantes daquele lugar, também eles ricamente adornados com as mais puras sedas, os mais finos cetins e os mais ricos veludos… Na sua palidez de enfermos e no semblante triste de viúvos da própria vida, ostentavam, orgulhosamente as jóias mais raras ornadas com as mais preciosas pedras que o ouro podia comprar… É certo que ninguém os poderia classificar como felizes mas eram, sem duvida, soberbos na sua infelicidade. Por isso eram olhados com respeito e um certo temor pelos restantes reinos.
Sempre assim fora e, tanto quanto seria dado a adivinhar, sempre assim continuaria a ser. Houve, no entanto, um acontecimento inesperado que veio alterar o curso sereno e pacato do calendário neste incomparável reino. E é disso que quero falar-vos hoje.
Chegou certo dia àquelas paragens, uma criaturinha de tez morena e rosto saudável, onde brilhavam uns olhos amendoados e imensos, cheios de sede e de sonho. Trazia um vestido leve e solto, onde brilhavam todas as cores do arco-íris. Nada nela era rico mas, mesmo assim, parecia brilhar como um sol enquanto percorria, saltitante e ligeira, as ruas impecavelmente calcetadas da cidade. Era uma criança. Mas não uma dessas crianças macilentas e tristonhas, criadas nas suas magníficas gaiolas de pedra trabalhada. Não. Ela vinha de uma qualquer outra terra, certamente mais quente e mais livres do que o reino que agora pisava. Havia nela algo de tropical, de festivo, que contrastava com a seriedade das fachadas e dos rostos que por lá grassavam. Nada nela era estudado; os gestos eram naturais e o riso genuíno. E ela parecia efectivamente encantada com a descoberta que acabara de efectuar, de um povo cujos representantes pareciam ricos bonecos de loiça com seus rostos brancos impecavelmente maquilhados, e longos vestidos de cauda, como que prontos a apresentar-se num baile de gala a qualquer momento. Nunca nas suas deambulações se cruzara ela com gente assim e, portanto, foi com imensa curiosidade que se dispôs a conhece-los e se atreveu a falar-lhes.
Por seu lado, os habitantes locais pareciam estupefactos com o aparecimento daquela menina, tão diferente de todos eles. Parecia-lhes inconcebível que uma criança pudesse calcorrear os caminhos da cidade despreocupadamente atrevendo-se a cumprimentá-los e tratando-os como iguais. Não havia memória de jovem que assim tivesse procedido, como não havia registo de alguém, fosse adulto ou criança, que como ela rodopiasse ao sabor do vento, ou soltasse estridentes e sonoras gargalhadas enquanto, mergulhada ate à cintura na maior fonte da cidade, rodeada de ninfas do mais imaculado e polido mármore, ia salpicando os transeuntes com as aguas cristalinas onde mergulhara.
Com o passar dos dias, a curiosidade (e, porque não dizê-lo?) uma certa simpatia, levou os habitantes a falarem à menina e, alguns chegaram mesmo a recebê-la em suas casas. Era quase impossível resistir à boa disposição e clarividência do seu discurso. Alguns murmuravam entre si que ela não podia ser uma criatura deste mundo; seria talvez uma fada, ou um qualquer outro ser extraordinário que descera à terra para lhes abrir os olhos e mudar os seus costumes. Aquela criaturinha de rosto moreno e radiante, fê-los lembrar as crianças enfezadas e pálidas que guardavam em casa, como doentes e, aos poucos, começaram a ver-se alguns miúdos pelas ruas. Eram, como seria de esperar, muito diferentes da menina de cabelos negros e vestido de arco-íris; faltava-lhe a chama, como se, num qualquer ponto do caminho tivessem desaprendido de viver.
Mas a menina não pareceu incomodar-se. Talvez visse aquela aparente apatia como um desafio e, como tal, dedicou-se de alma e coração àquelas crianças. Os adultos viam-na com as suas saias esvoaçantes e soltas correr pela cidade puxando um ou outro catraio, cantando e rindo. Não tardou a que os miúdos correspondessem e começassem a encher as ruas de risos e gritos e alegres conversas. Em pouco tempo, a cidade parecia outra e os habitantes agradeciam secretamente a bênção daquela visita. As casas onde antes morava apenas a dor, ou a sabedoria, ou a melancolia, tinham agora espaço para conversas e risos e, isso, era algo que ninguém nunca vira naquele país.
Um dia, porém, depois de umas quantas horas de brincadeira, a menina sacudiu o vestido e anunciou que ia partir. E, embora ninguém se tivesse atrevido a travá-la, o olhar de tristeza e desolação que assombrou todos os rostos, disse mais do que quaisquer palavras poderiam ter dito.
A menina, no entanto, não pareceu incomodada; a todos sorriu e, depois de distribuir beijos e abraços por todos e cada um individualmente, depois de se ter dependurado no pescoço do homem que morava no soberbo castelo da sabedoria, de ter beijado até às lágrimas a jovem que se escondia na mansão da dor, de ter abraçado e afagado o rapaz que morava no palácio da saudade, de se ter aninhado nos braços da mulher que vivia na moradia da serenidade, e do homem que raramente deixava o seu solar onde reinava a solidão, depois de tudo isso, recuou dois passos e, solene, disse-lhes:
_ A minha partida não é um “adeus”! Eu estarei sempre convosco e, se algum dia disso duvidarem, olhem aquela fonte, onde eu gostava de brincar…
Dito isto, pôs-se a caminho, não sem antes deitar um último olhar àquela estranha assembleia que a via partir com tristeza.
Ao voltarem a suas casas, no entanto, não puderam deixar de olhar a fonte da qual a menina falara e, o que viram, aqueceu-lhes o coração: os últimos raios do sol que se punha, brilhavam contra as gotas de água que saíam dos vasos das ninfas para alimentar aquele pequeno lago e formavam o mais formoso arco-íris que alguma vez fora visto naquelas paragens.



A ouvir: Luiza Possi - Somewhere over the rainbow

Saturday, April 11, 2009

(Dis)belief

Devotion, Adrian Cordero in Deviantart























_ That cross you wear around your neck; is it only a decoration, or are you a true Christian believer?
_ Yes, I believe - truly.
_ Then I want you to remove it at once! And never to wear it within this castle again!
Do you know how a falcon is trained my dear? Her eyes are sewn shut. Blinded temporarily, she suffers the whims of her God patiently, until her will is submerged and she learns to serve - as your God taught and blinded you with crosses.
_ You had me take off my cross because it offended....
_ It offended no-one. No - it simply appearsto me to be... discourteous to...to wear the symbol of a deity long dead. My ancestors tried to find it and to open the door that separates us from our Creator...
_ But you need no doors to find God!!! If you believe....
_ Believe?! If you believe you are... gullible. Can you look around this world and believe in the goodness of a god who rules it? Famine, Pestilence, War, Disease and Death! They rule this world!
_ There is also love and life and hope!
_ Very little hope I assure you. No. If a god of love and life ever did exist... he is long since dead. Someone... something rules in his place.

*From the lyrics of “And When He Falleth”



A ouvir: Theatre of tragedy – And when he fallet

Saturday, April 04, 2009

Do Nascimento da Lenda

À Fata Morgana
With the wind, Sue Anna Joe in DeviantArt


Abandonar os convivas a meio do banquete e deixar o salão não era, definitivamente, o mais louvável ou sequer previsível dos actos, muito menos quando todo aquele aparato fora montado em sua homenagem. Ainda assim ela fê-lo. Murmurou algumas sílabas imperceptíveis ao garboso cavaleiro com quem dividia o centro da mesa e afastou-se rapidamente, os seus passos ligeiros totalmente imperceptíveis sob o alarve grunhido daquela pequena multidão, em júbilo perante taças rubras de vinho doce e travessas apinhadas de suculentas peças de caça.
Sempre lhe custara qualquer convívio forçado e as ocasiões festivas em particular agigantavam-se na sua alma como um tormento, um gigante pesado e desajeitado, com uma voz que eram muitas vozes sem que, de facto, fosse voz nenhuma; um monstro feito de braços e mãos e pernas e rostos, muitos rostos sem, na verdade, ter rosto nenhum. Era essa a imagem que aquela gente assumia para ela: uma amálgama de corpos disformes e suados a rosnar e a grunhir; uma besta regada a álcool e carne vermelha, com a fenda da boca a escorrer molho e as manápulas imensas, gordurosas e imundas querendo agarrá-la...
Por isso, quebrando todas as convenções, fugiu daquele lugar e daquelas gentes que a nauseavam. Os seus passos rápidos levaram-na até ao interior do castelo, em busca de silêncio e isolamento. À medida que ia avançando, o ruído ensurdecedor das gentes foi-se desvanecendo, travado pela pedra escura e fria da majestosa construção. Gradualmente a sua respiração foi estabilizando e o coração serenou, voltando à cadência quase imperceptível que o caracterizava. Então, também os passos se tornaram mais lentos e ela deixou-se vaguear pelo edifício.
Enquanto deambulava pelos corredores labirínticos da impressionante construção, notou a azáfama das aias, entrando e saindo de um certo aposento, selado por uma magnífica porta de nogueira que, volta e meia, se abria para deixar passar uma rapariguita atarefada, levando flores ou jarros de vinho aromatizado com especiarias e cálices. Ainda que inconscientemente, a jovem aproximou-se para espreitar, lavada pelo crepitar acolhedor da lareira que lá dentro estalava alegremente, talvez também ela em júbilo, ansiosa por receber os recém-casados. Quando se aproximou da entrada estacou, esmagada pela opulência que reinava na divisão, toda ela coberta de ricas tapeçarias escarlate e ouro. No centro, majestosa e imponente, a cama de dossel dominava o espaço com os seus imensos reposteiros de damasco afastados e os lençóis de linho alvíssimos salpicados de ervas, para promover a fertilidade, sobre os quais não tardava teria de cumprir o seu dever de esposa.
De repente, uma das serviçais apercebeu-se da sua presença e, soltando um pequeno gincho, aproximou-se rapidamente:
_ Senhora! Não deveis estar aqui! Ainda não é o momento da noiva entrar na sua alcova! E nem deve chegar sozinha! Eu compreendo que estejais ansiosa mas não podeis permanecer aqui. Ide, descei e aproveitai a festa!
Com uma vénia e um sorriso, a menina afastou-se, deixando-a de novo só.
Podia ter descido, como a garota lhe recomendara; seria talvez o mais sensato. Mas, em vez disso, resolveu subir às ameias. Precisava de sentir o vento, o ar fresco da noite e a claridade suave da lua, em contraste com os artoches e as fogueiras que, com o seu brilho alaranjado, enchiam a festa.
Quando chegou ao cimo das muralhas, longe de todos, sentiu-se finalmente em paz. O abraço acolhedor da noite envolveu-a e ela ergueu o rosto aos céus, perscrutando a imensidão de estrelas que os enfeitavam. Como era mínima face à imensidão do universo! E como eram ridículas as suas luxuosas vestes de samito bordadas a ouro, quando comparadas com o brilho singelo de um astro! A brisa que corria trazia-lhe suaves aromas do bosque, cheiros em tudo diferentes do aroma de excessos e álcool que reinava na festa, lá em baixo. Ela fechou os olhos, para sentir a aragem contra o corpo e permitir que ela se apoderasse dos seus magníficos cabelos longos, deixados soltos para proclamar a sua virgindade. Permaneceu assim, quieta, durante muito tempo e, quando voltou a abrir os olhos, brilhava neles uma nova vida, como uma esperança renovada.
Desceu a correr das ameias e, veloz como uma corça, entrou no castelo e percorreu-o até chegar à ala dos criados. Assim que lá chegou, entrou num dos aposentos das aias e libertou-se das longas vestes nupciais, ao mesmo tempo que se despojava de todas as jóias que a cobriam e, finalmente, do anel de ouro novo e reluzente, que brilhava no seu dedo fino como uma promessa de serenidade e abundância. Vestiu apressadamente as roupagens, bem menos aveludadas de uma qualquer criada, e cobriu-se com um manto de viagem.
Quando atravessava, sorrateira o pátio, já bem próxima da saída das muralhas, viu uma mulher correr ao seu encontro e, mesmo na escuridão, soube de imediato tratar-se de sua mãe. Esta, por sua vez, aproximou-se com tal rapidez e trazendo uma expressão tão alarmada no rosto, que se tornou claro já ter adivinhado as intenções da filha.
Assim que chegou à sua beira falou-lhe, num tom nervoso, embora baixo:
_ Filha, tens a noção do que estás a fazer?! Vê bem o que deixas para trás, pensa bem, peço-te… Peço-te! Olha para este castelo, pensa em todas as riquezas que agora são tuas; olha os terrenos que por direito te pertencem; os servos, as aias e os lacaios que se desdobram em esforços para te agradar; vê o homem que te tomou como esposa, exímio na palavra e na espada!... Quantas mulheres não desejariam estar hoje no teu lugar, cobertas de veludos e de jóias, prestes a partilhar a alcova com um dos mais belos e cobiçados cavaleiros do reino!... Vais deixar tudo isso para trás?!...
À medida que a interpelava, o rosto da mulher mais velha tornava-se tenso e afogueado, consequência da crescente rapidez e intensidade do discurso. A cada segundo que passava via aumentar o brilho resoluto da liberdade que incendiava o olhar da filha e isso fazia-a gritar com ainda mais força como se, ao fazê-lo, pudesse abafar a voz interior que lhe dizia que nada deteria aquela jovem. Por fim, desistiu de lutar contra o que se lhe afigurava como inevitável. Nesse momento, nesse único momento, houve um instante de silêncio e entre as duas mulheres estabeleceu-se a mais forte das alianças e a mais intransponível das barreiras. Ali souberam que se separavam definitivamente uma da outra e, num único olhar, enfrentaram essa realidade. Foi um olhar apenas e durou um instante só, mas nele coube todo o amor do mundo, transbordante e verdadeiro. E a lembrança dessa aliança haveria de perdurar pelas suas vidas.
Quando voltou a falar, a voz da mãe era fraca e arrastada:
_ Morgana, aqui morre a mulher que podias ter sido… É um caminho que não tem retorno; tu sabe-lo…
A jovem sorriu-lhe, um sorriso só, quase imperceptível e respondeu num murmúrio apenas:
_ Sei… Mas aqui nasce, também, a lenda da mulher que virei a ser.



A ouvir: Celtic Women - The voice